segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Família, um problema

Recentemente estava discutindo com uma das minhas ficantes regulares e uma amiga dela sobre o tema da Família; após uma discussão mt pouco produtiva (coisa bem comum em debates online) enviei por e-mail para a amiga da minha ficante um textos meus sobre o tema, mas quando os selecionava, percebi que tenho pouca coisa q resuma claramente minha opinião, então me senti impelido a fazer esse post.

Bom, eu há mt tempo já falo do tema da família e tenho uma concepção muito clara e polêmica sobre ela: sou contra! Isso certamente é mt estranho pra mta gente e é certamente um tema mt complexo e difícil de esmiuçar, mas aqui vai um resumo mais básico do que penso.



Primeiro, o mais básico: família não é parte da natureza humana. Certamente ela não deixou de existir em nenhuma formação social humana que não tivesse sido planejada para tal. Mas tem dois problemas: 1 - natureza humana não existe, é pura e simplesmente um mito; nossos genes não determinam nosso comportamento, apenas nossas necessidades fisológicas (e mesmo essas podem ser condicionadas, até certo limite, ao longo da nossa vida); 2 - a enorme variedade de formatos de família que as diversas sociedades humanas criaram nos levam a crer que a própria família é um instituição social historicamente determinada e que cumpre um papel social específico, mais do que ser uma mera herança biológica.

Sendo assim, é plena e absolutamente válido e útil pensar na família como uma instituição e, portanto, de forma crítica.

O que seria a família, afinal? Isso é difícil de responder, dado que os formatos de família são diversos. Mas o que podemos definir, a partir das características comum entre todas (sim, todas) as sociedades humanas conhecidas até agora: ela é uma instituição que socializa novos indivíduos, responsável pela reprodução biológica socialmente legítima da espécie, é determinada fundamentalmente por laços genealógicos e possui uma hierarquia genealógica interna baseada na divisão de gerações; e sim, por incrível que pareça, para além disso, TUDO varia (amor entre os membros, monogamia, determinação das relações de parentesco, etc. tudo isso varia historicamente).

Dado isso, vamos aos problemas:

Uma instituição baseada em genealogia é simplesmente contraditória com escolha. Ou seja, ninguém escolhe a família da qual faz parte - ela está ligada intrinsecamente a você, não importa o que você faça. Fora quando o casamento não é bifocal, ou seja, quando um dos sexos "deixa de ser" de sua família de origem para ser parte de uma nova (a do cônjuge) quando casa, não existe possibilidade de perder o laço familiar, exceto quando ela é desconhecida ou ela não te reconhece como membro dela; ou seja, a sua escolha simplesmente não importa: seu pai é seu pai (com todos os papéis correspondentes a ser pai) por que ele é teu progenitor, e não há nada que se possa fazer para evitar isso. Alguém vê alguma semelhança com castas e estamentos? O nome disso é localização social por nascimento.

- "ah, mas seu pai biológico é sempre seu pai biológico, não importa o que aconteça, logo, só poderia ser assim mesmo" Não. Nem toda sociedade determina que seu pai biológico é mesmo seu "pai" social; e temos a adoção para também jogar isso fora; a sociedade determina um critério para alguém ser seu pai, de dentro pra fora, sem mudança por vontade posterior.

Se fosse só isso, já seria ruim, mas não acaba por aí. Essa pessoa que você não escolhe, e da qual não tem opção socialmente aceitável de fugir por opção, tem autoridade sobre você. Essas pessoas específicas, que não foram treinadas para fazer isso científica e profissionalmente, que não têm controle social de seu poder, que não foram votadas para fazer isso, simplesmente têm total controle legítimo sobre os novos indivíduos durante boa parte de sua vida (especialmente a tenra infância). Me digam, oq faria alguém, com total poder legítimo sobre um outro ser humano, abrir mão deste poder com o tempo? sua mera boa vontade? foi mal, as regras de vida prática das pessoas determina o como elas agem/pensam.

- "ah, mas é para socializar a criança, e isso é uma tarefa social necessária" sim, mas por quanto tempo? e a família (ou seja, essa instituição, com essa estrutura) não precisa ser quem vai fazer isso. O nome disso é criação individual.

Mas o motivo dos pais terem essa autoridade é justamente o fato de que eles são os responsáveis fundamentais pela socialização dos novos indivíduos. Chamo isso de Criação Individual, ou seja, feita por indivíduos, como se fosse um direito/dever exclusivo do indivíduo. Isso tem vários problemas! Primeiro que isso é extremamente autoritário para a criança: alguns indivíduos específicos têm total poder de determinar, livremente, que coisas as crianças terão acesso ou não, de acordo com suas próprias concepções individuais; também, a criança não tem a quem recorrer para fugir à autoridade dos pais, já que a autoridade legítima é deles; essa estrutura não só estimula a desobrigação do resto da sociedade para com as crianças de outras famílias ("não tenho nada a ver com isso, não é meu filho"), como também tira o poder das outras pessoas de influenciar na vida da criança, garantindo assim poder praticamente absoluto dos pais sobre os filhos (por quê quando falamos isso de governos, todo mundo acha tão absurdo, quando se fala de pais e filhos todos acham que isso é mt certo e bom? " a bota que te pisa, mesmo que seja mais leve, ainda é uma bota");

Também, com isso, restringimos as possibilidades de desenvolvimento da criança. Por quê? nosso cérebro organiza nossas memórias e avaliações e, a partir delas, determina uma forma de organizar os pensamentos futuros; logo, as categorizações que fazemos quando crianças, ou seja, determinadas pelos nossos criadores, determinam muito do como veremos as coisas depois. Logo, se a criança tem acesso a referências tão limitadas, quanto a dos parentes (que, pelo mesmo motivo e pelos critérios de seleção de parceiros envolverem similaridades também ideológicas e culturais, tendem a se parecer e ter referências comuns), a probabilidade de ela simplesmente reproduzir as concepções de sua família são muito grandes, especialmente a dos que possuem autoridade mais próxima deles - ou seja, isso diminui terrivelmente o espaço para a variabilidade social e o desenvolvimento mais livre de crianças, ou mesmo tempo em que limita as possibilidades de desenvolvimento da criança.

Além disso, dado que são sempre as mesmas pessoas que lhe dão acesso ao conhecimento e a experiências prévias da humanidade, a tendência é que eles criem nos parentes uma referência de verdade que tende a absoluta, bem como, no caso de sociedades em que os pais têm relações afetivas com os filhos, uma referência afetiva e emocional exclusiva, o que tende à obsessão. Ademais, isso gera uma relação privilegiada de verdade, que desqualifica outras fontes de verdade possíveis em favor das dos criadores da criança; além de estimular, quando há relação afetiva no interior da família, privilégios afetivos no interior dela, pondo-a, assim, afetivamente separada dos outros seres humanos, organizados, por sua vez, em outras famílias, tudo isso sob o critério de nascimento, contradizendo, assim, a livre-escolha afetiva e mesmo a ampliação dos limites afetivos e a desalienação em relação aos indivíduos da sociedade de conjunto, pondo-os, assim, em contradição.

Além disso, se a família incluir afetividade, ela pode ser usada como arma de chantagem a fim de manter o controle dos pais sobre os filhos, ao mesmo tempo que deixa o filho à total e absoluta mercê dos pais para garantir sua sustentação emocional (se eles simplesmente não quiserem mais dá-la, ele ficará sem ela, que é uma necessidade humana).

Também os pais detém a propriedade dos meios de subsistência e das fontes de renda das crianças, ou seja, elas são absolutamente dependentes dos pais (especialmente em sociedades em que as crianças são impedidas do trabalho, como na nossa). Isso quer dizer que tudo a que a criança tem acesso são de posse e poder absoluto de seus pais, ou seja, daqueles que detém poder sobre ela; ou seja, sua própria sobrevivência física depende do desejo de seus pais - e a maioria das famílias usa-se da chantagem material como método padrão de controle dos filhos. Isso impõe à criança uma situação, que só não é aterrorizante por quê elas geralmente não pensam na possibilidade (que existe), de simplesmente perderem tudo e ficarem se acesso a quaisquer meios de sobrevivência a depender da vontade de seus pais. Também a chantagem emocional está apoiada através disso, criando a obrigação da "dívida moral" para com os pais por terem sustentado a criança - como se isso não fosse uma obrigação social ou como se a criança tivesse qualquer opção.

Preciso falar de como a superioridade física dos pais e a violência decorrente de seu uso servem de instrumento de poder? não, né?

Ao mesmo tempo, a hierarquia baseada na genealogia é irracional e desprivilegia a lógica: se um filho está certo e o pai errado, a autoridade baseada na genealogia privilegia o pai e suas decisões, ou seja, o que importa não é o que é racionalmente aceito e entendido, ou acordos comuns, regras estabelecidas racionalmente através do debate, mas sim, a genealogia. (E as pessoas ainda ficam putas quando os filhos dão chilique dizendo que querem uma coisa e não a outra! E as pessoas ainda reclamam quando seus filhos ignoram seus argumentos! Quando a situação é inversa, o que vocês fizeram mesmo?) Isso estimula na criança a busca, como forma de conhecer e aprender, de referências estáveis, imutáveis e irracionais, ou seja, ; e, como forma de determinar seu comportamento/respeito, a autoridade inquestionável;


Além disso, para os pais, a obrigação de cuidar de uma criança é também um fardo: eles têm (exceto quando têm poder material suficiente para tercerizar sua tarefa) a obrigação de cuidar, formar e controlar as crianças; serão responsabilizados eternamente por qualquer problema decorrente desta tarefa; e têm de fazer isso "solitariamente", sem a ajuda/acompanhamento do resto da sociedade, sem preparação prévia e sem deixar de ter todas as outras obrigações sociais que eles já têm, especialmente trabalhar; restringe, assim, portanto, as possibilidades de desenvolvimento dos pais, sua liberdade de atuação e os impõe uma qualificação social determinante baseada nas ações de uma outra pessoa.


Esse último aspecto, combinado com os outros, faz com que os pais tenham como interesse intrínseco a seu papel social, determinar o caminho que seu filho segue, afim de determinar o que ele se tornará e, assim, garantir sua legitimação social enquanto pais - como ser pais é intrínseco a seu ser a partir do momento em que a criança entra no mundo, seu próprio ser está em jogo na sociedade, ou seja, o que seu filho se tornar determinará sua validade enquanto pai. Para fazê-lo, ele precisa controlar os caminhos que o filho segue, logo, as referências a que ele tem acesso, as coisas que ele faz, pensa e sente, o tempo todo, desde cedo até a idade que considera-se "madura", no caso da nossa sociedade, ao final da adolescência. Ou seja, até lá, os pais não só têm o poder, como a obrigação de usar seu poder para determinar, em todos os aspectos, o desenvolvimento de seus filhos para que eles se tornem aquilo que é a expectativa social de excelência, ou seja, uma concepção específica e determinada - isso parece algo diferente de autoritarismo? 

- "ah, mas isso é uma questão social, do que a família tem de expectativa para a criança! se forem expectativas mais abertas, tranq" Não. por que se a expectativa social for mais ampla, o que impede os pais, investidos de poder e obrigação de poder quase absolutos, de determinarem um padrão muito específico e claro para impôr aos seus filhos?

Mesmo com o seu Ser em questão, isso está parcialmente desligado de qualquer outra coisa que o pai seja perante a sociedade, ou seja, mesmo que seja esperado dele que seja uma pessoa democrática e aberta num contexto social de liberdade, ele pode ser completa e absolutamente autoritário em sua casa, pois as relações sociais são diferentes e exigem posturas diferentes. Isso explicaria por que muitas pessoas de esquerda, por exemplo, são autoritárias com os filhos.

Para a maior parte das coisas que citei aqui, as pessoas devem ter pensado "mas isso tem limites" ou "os pais não podem fazer essa coisa desse jeito, por que temos conselho tutelar, justiça, etc". Sim, sim! Justamente! A única coisa que impede os pais em geral de exercerem poder absoluto sobre os filhos é controle social. Isso quer dizer que, para controlar os abusos que a estrutura de funcionamento da família estimula, é necessário que haja uma outra estrutura social exterior que a controle, ou seja, é necessário que exista uma estrutura coletiva externa em contradição com a criação individual. Isso quer dizer que a existência da família exige uma insituição coletiva que cuida da criação das crianças a fim de compensar os danos causados pela criação individual.

E é exatamente isso que tem acontecido em nossa civilização: atualmente pomos nossos filhos em escolas e creches, temos conselhos tutelares, leis de proteção à criança e ao adolescente, acesso a informações individualmente através da internet, uma criança pode ser retirada do cuidado dos pais em função de avaliações institucionais de que ela foi "abusiva". Cada vez mais avançamos no sentido de substituir o papel da família por instituições mais eficientes. Quando a família era o único meio de criação dos filhos, as pessoas não tinham acesso a muitos conhecimentos e a variabilidade nas pessoas era muito mais restrita. Nunca, na história da humanidade, os seres humanos foram tão diversos quanto hoje (mesmo que ainda sejam muito parecidos entre si e haja uma brutal uniformização) e isso se deve, também, por que a complexificação da vida social e o avanço tecnológico começaram a exigir da humanidade métodos mais eficientes para formar seus indivíduos.

Ao mesmo tempo, no campo ideológico, das mentalidades, a noção de que a educação tinha que ser pública e de acesso a todos foi iniciada para atender a reivindicações de grupos que justamente exigiam a expansão das possibilidades e do desenvolvimento dos indivíduos, sendo, inclusive, ampliado o processo muito fortemente (com o surgimento de leis de proteção às crianças, por exemplo) a partir da década de 60, em que a liberdade em geral foi posta como importante - ou seja, é conjuntural e histórica. Essa reivindicação acompanhou a luta por restrições à autoridade dos pais e o reconhecimento de direitos dos filhos, gerando a noção hoje de que a família é lugar de afeto e que os pais devem dar liberdade a seus filhos.. A busca por liberdade teve que se dar por fora do regime familiar, em contraposição a ele e em direção à coletivização do cuidado com as crianças

Ao mesmo tempo, temos indícios de que em momentos de maior desenvolvimento econômico as pessoas costumam se tornar mais diversas e mais desapegadas das suas respectivas famílias - é, entre outros, uma questão de auto-confiança, autonomia, etc, assim como aumentam os divórcios, diminuem os casamentos etc. Ou seja, a família perde importância na vida das pessoas e se "desagrega" mais quando as pessoas vivem melhor - isso também é perceptível historicamente em sociedades que não são de mercado, mas que são complexas.

Mas, de qualquer forma, se criamos instituições sociais coletivas que cumprem o mesmo papel que a família, mas, teorica e potencialmente, de forma melhorada, mais eficiente, não podemos ter outra conclusão mais do que a de que a família é, em termos de desenvolvimento humano, obsoleta. Ela se mantém hoje certamente por motivos diferentes dos da família em geral, mas específicos de nossa estrutura social; a saber, a passagem linear da propriedade privada.

Logo, apesar disso tudo, não acho q seja uma tarefa para agora o fim da família, que é meu objetivo; isso só é possível com o fim da propriedade privada e, portanto, do capitalismo e, portanto, da nossa sociedade. Enquanto isso não acontece, a luta existe, mas se dá com vários limites - o fim de nossa estrutura social antecede a mudança das mentalidades e práticas (e isso é um dado histórico imprescindível para entender essa e outras questões).

Ser contra a família não quer dizer roubar os filhos dos colos de suas mães à força e proibir relações parentais, ou forçar todos a estarem em campos de concentração para crianças. Quer dizer que acredito que o mundo seria melhor sem a família (assim como sem a monogamia ou a religião), ou seja, quero construir uma sociedade em que ela não exista. A construção dessa sociedade, no entanto, é um processo histórico, e processos históricos dessa escala não são repentinos, mas duram muito tempo e exigem uma grande mudança de mentalidades e, principalmente, formas de vida em massa - quero que as pessoas se convençam de que a família é um problema e que ela seja trocada pela criação coletiva com o tempo; essencialmente, quero aprofundar o processo que já ocorre com a criação de novos indivíduos até o que creio seja seu desenvolvimento último.

Basicamente, para hoje, defendo escola e creche integrais, melhoras no sistema de ensino público, inclusive maior investimento governamental, o aumento da abrangência e da implementação das leis de defesa das crianças e adolescentes, bem como a redução da maioridade civil (não a penal), entre outras coisas.

Como esse post já está enorme, não vale a pena esmiuçar outros aspectos, como, por exemplo, como se daria essa criação coletiva ou implicações práticas hoje para a nossa relação com a família. Isso fica pra depois, ou pra quem quiser conversar comigo sobre isso. Não acho q esses assuntos q faltam sejam menores, na verdade, são essenciais, mas isso que escrevi aqui vem antes e serve de base pro resto! ok?



Aliás, não espero convencer a maioria das pessoas (especialmente pais e mães) disso com esse post ou argumentações minhas não! Vivemos no capitalismo, então o estado normal das coisas é eu ser minoria. Mas a minha pauta de reivindicações concretas é que vou batalhar pra convencer as pessoas - programa de transição, meus filhos!

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