quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Por que uma relação monogâmica é opressora para umx poliamorista, mas uma relação poliamorosa não é opressora para umx monogâmicx?



Existe uma tendência muito errada no debate sobre orientações/opções relacionais de equiparar monogamia e poliamor como se fossem ambas formas igualmente dispostas para a vivência amorosa. Nada mais distante da realidade.



Primeiramente, não vivemos numa sociedade neutra quanto às formas de relacionamentos... vivemos numa sociedade monogâmica que se aproveita mononormatividade para desqualificar e invisibilizar todas as formas de não-monogamia, especialmente o poliamor. Através do convencimento a todxs de que a única forma possível de se envolver é a monogamia, que ela é a forma “normal” e “natural” da humanidade se relacionar afetivamente, através do ensinamento de todos os seus parâmetros de relação às pessoas não como parâmetros de uma forma de relacionamento, mas como os parâmetros do relacionamento afetivo em si, a sociedade patriarcal capitalista impõe a todxs nós uma desqualificação a priori de qualquer outro modelo de relação, bem como um conjunto de barreiras sociais, culturais e psicológicas para o exercício pleno da nossa afetividade, ou seja, quando estamos fora dos estreitos limites da monogamia.

Nesse sentido, a relação monogâmica é privilegiada em comparação à relação poliamorosa ou outras formas de não-monogamia, através de leis que a amparam, de métodos culturais, legitimidade e uma longa preparação ideológica e emocional para a monogamia – que todos nós recebemos, independente de quem somos. Então, não se pode falar de uma igualdade entre as duas formas de se relacionar.

Mas podemos ir mais fundo. Como o patriarcado é monogâmico-poligâmico (vide o funcionamento das sociedade patriarcais na história e nas culturas humanas), ir contra essa norma sistêmica é ir contra o sistema de funcionamento das relações entre gêneros na nossa sociedade. Isso coloca a questão do poliamor e de outras formas de não-monogamia não machista coladas intrinsecamente à questão da mulher e à questão LGBT (até mesmo da questão racial, dado que a maioria dos povos negros escravizados não eram monogâmicos e foram forçados a sê-lo, muito embora a maioria desses povos fosse patriarcal). Só isso já seria o suficiente para entender que os poliamoristas são um grupo oprimido, muito embora boa parte da sociedade nos trate como se não existíssemos.


Mas, para além disso, o poliamor coloca em questão um aspecto fundamental da ordem burguesa: a propriedade privada. A partir do momento em que se pode construir uma vida com mais de uma pessoa, especialmente em relacionamentos grupais, a propriedade privada dos meios de subsistência cai por terra, bem como a ideia de herança... quanto mais pessoas envolvidas, mais coletiva é a propriedade. No caso da propriedade privada dos meios de produção, existe uma questão a mais: com a desnecessariedade da competição por parceirxs entre os envolvidos e a criação de uma rede de apoio mútuo que supera a estrutura nuclear ou da família genealógica, extendendo por várias famílias e grupos a construção de relações de solidariedade e parceria estruturantes das nossas vidas, a divisão dos trabalhadores, dos não-proprietários, fica abalada e constrói-se uma outra lógica de relação entre indivíduos.

Claro que não é a extensão do poliamor para o mundo que será o fim da propriedade privada, do capitalismo ou do patriarcado, mas sim, isso indica que o poliamor é um fenômeno que, por mais que tudo indique que seja objetivo (ou seja, aconteça naturalmente pela nossa fase histórica, e não pelo mero convencimento de um poliamorista para outro), entra em contradição com o funcionamento social vigente. Isso complementa o lugar dos poliamoristas como grupo oprimido.

Por isso, não faz sentido falar em poliamoristas oprimindo monogâmicxs, a não ser que seja por outras questões que não a da orientação/opção relacional (ou seja, um poli oprime um mono quando é homem e oprime uma mulher através de privilégios de gênero, ou quando é brancx e oprime umx negrx por privilégios raciais, etc). Não faz sentido, também portanto, pensar no relacionamento poliamoroso como um relacionamento opressor para alguém que é monogâmicx.


Mas não consideremos, por enquanto, essa conclusão sobre relacionamentos. Vamos averiguar direitinho a estrutura das duas relações?

O motivo pelo qual umx poliamorista é oprimidx numa relação monogâmica é óbvio: elx está proibidx de estabelecer outros relacionamentos amorosos, mesmo que queira. X Poliamorista é forçadx a castrar aquilo que, para elx, é natural, o envolvimento múltiplo, em prol da manutenção da relação e privilegiando, assim, a relação monogâmica - que é o modelo imposto socialmente - mas também privilegiando x monogâmicx que, através da clausula de exclusividade, impõe a sua limitação e sua vontade de controlar o envolvimento dx parceirx (ou a sua falta de vontade de se envolver com outrxs parceirxs).

Umx poli que, por acaso, acabe não se envolvendo por mais ninguém durante o tempo em que está num relacionamento mono, não deixa de ser oprimido por causa disso, obviamente – elx continua presx à clausula de exclusividade a dois. É como o caso do prisioneiro que foi proibido de ir ao banheiro, mas que por não ficar tempo suficiente preso para sentir a vontade (ou para ela se tornar incontrolável) consegue passar bem por esse tipo de restrição no tempo em que isso rolou – o prisioneiro, no entanto, não deixou de ser proibido de ir no banheiro, no entanto. Nesse sentido, uma relação monogâmica é SEMPRE opressora para umx poliamorista.

Vejamos a situação contrária, no entanto. Umx monogâmicx só está sendo impedidx, numa relação poliamorista, de impor ax parceirx poli uma clausula que o oprimiria, mas n está forçadx a se relacionar com quem não queira. Umx monogâmicx numa relação poli, pode não lidar bem com as possibilidades abertas para sx parceirx, mas não pode dizer que é oprimidx por causa disso: oprimidx por quê? Por não ter o direito de oprimir sx parceirx? Umx monogâmicx que não seja completamente inseridx na mononormatividade e na polifobia, pode muito bem permanecer num relacionamento poliamoroso sem se relacionar com mais ninguém além de sx próprix parceirx. Que direito lhe está sendo castrado? Que liberdade lhe está sendo tirada? Apenas o de oprimir sx parceirx. Em contra-partida, x monogâmicx está ganhando o direito de se relacionar com duas (ou talvez mais) pessoas se assim desejar.

É possível pensar que, numa relação mono-poli, é possível se fazer mediações procurando outras formas de relacionamento, mas é essencial que sejam formas de relacionamento não-monogâmicos. A monogamia para umx poli não é uma mediação, é uma imposição. Na minha opinião, uma relação poli pode perfeitamente acomodar umx monogâmicx que respeite o direito de sx parceirx.


Portanto, também, não é nada opressor sonhar com um mundo em que o poliamor seja o modelo vigente, pois se alguém for "naturalmente" monogâmicx, elx não estará sendo oprimidx por estar em um relacionamento poli – é só não ficar com mais ninguém além de sx parceirx.

Eaih, galera, oq vcs acham?

Vontade e Sabedoria na Guerra!

Um comentário:

  1. Foi bem esclarecedor seu texto pra pontos que são conflitantes na minha vivência.
    Concordo sobre essas relações de opressão em sua grande maioria, e é um bom argumento em nome de leis e normas menos inflexíveis - ainda que essas propostas não sejam sequer ouvidas institucionalmente, pelo contrário, atropeladas pelo estatuto de famílias, mas isso é outro papo.

    Meu ponto é: estou apaixonada por um homem monogâmico, e dentre todos os prazeres e desprazeres envolvidos temos tentado lidar com isso por nossa vontade de querermos um na vida do outro, mas que isso seja o mais leve possível e sem dor.
    Eu gostaria muito de comprar todas as fichas desse pensamento de que não há opressão sobre a pessoa monogâmica - e de fato, não parece haver. Contudo se estamos lidando com não monogamia responsável, o cuidado e emparia com os sentimentos do outro é essencial, ainda que esteja em outra lógica de relacionamento afetivo.
    O que quero dizer é que por mais livre que eu o deixe e isso seja bom para ele, a minha liberdade pode ter como consequência a dor do ciúme, da insegurança, da agulha no ego...E claro que ele se libertar disso parece a solução mais razoável e saudável, mas ele simplesmente não está nesse momento e eu tenho que respeitar, da mesma maneira que ele respeita minha forma de relacionamento apesar de não ser o que ele concebe para si.

    Enfim... estou precisando de luz para entender a possibilidade de um relacionamento "polimono" (monopoli só tá um O de distãncia do que tenho pavor...rs)

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